Fora, Lobato!

Disponível em: <http://www.guiacuca.com.br/sites/default/files/ imagecache/foto_small/evento-imagem-da-pagina/monteiro_lobato.jpg>.  Acesso em: 26 abr. 2012.

Há dois anos, o CNE (Conselho Nacional de Educação) decidiu não mais distribuir o livro Caçadas de Pedrinho às instituições de ensino por considerá-lo racista, com base na forma como Monteiro Lobato retratava Tia Nastácia, a “negra de estimação”, “a negra beiçuda”. À época Ministro da Educação, Fernando Haddad derrubou o veto e, no âmbito do CNE, a questão ainda não está encerrada. O debate chegou agora ao STF (Supremo Tribunal Federal) e os professores contrários à obra exigem notas explicativas e maior ênfase na educação étnico-racial. Considerando os pedidos anteriores de proibição ou de censura a determinadas passagens do livro, é um avanço…

O Ministério incluiu orientações sobre o uso de Lobato em sala de aula na Coleção Explorando o Ensino (volume 19). Está lá: “a identificação de estereótipos, o resgate do contexto histórico que lhes deu origem, a discussão de seu significado político e social, o debate sobre os valores e atitudes envolvidos, fazem parte, então, de uma adequada compreensão do texto. Por conseguinte, constituem-se como ingredientes indispensáveis da leitura crítica”. Mais à frente, podemos encontrar a referência direta à obra de Lobato e à personagem de Tia Nastácia: “devemos reconhecer, nessas e outras criações do escritor paulista, reflexos evidentes de uma cultura em que o lugar do negro é subalterno, herdeiro direto de uma ordem escravocrata (…). Entretanto, dizer que os livros infantis de Lobato são preconceituosos e recusá-los ou censurar passagens, em nome do combate ao preconceito, é esquecer que são ficções e que seus personagens e situações formam um mundo à parte, por mais que se relacionem de diferentes formas com o mundo real. Considerando-se esse dado, não é possível esquecer que a personagem de Nastácia inscreveu definitivamente o negro no imaginário de crianças e adultos de uma cultura letrada e urbana que preferiu ignorá-lo”.

Os autores da denúncia contra Lobato consideraram insuficientes essas instruções. Eles devem estar certos: Lobato é muito complicado e ensiná-lo nas nossas escolas demandaria preparo por parte dos professores. Contextualizar Lobato tornaria obrigatória a compreensão de um Brasil ainda nos cueiros: éramos uma grande maioria negra recém liberta da escravidão e alguns brancos alfabetizados (educados, em geral, na Europa), todos vivendo juntos num mesmo e imenso território. A elite agrário-exportadora de café comandava a política nacional (exigindo recursos públicos para a manutenção dos seus lucros), a nascente burguesia urbana buscava conquistar espaço, os operários não tinham qualquer proteção legal no trabalho (que, posteriormente, seria consolidada por Getúlio Vargas) e as mulheres não tinham direito ao voto (conquistado em 1932). Entender Lobato exigiria o conhecimento da Ciência do período já que, como típico homem de seu tempo, e preocupado em acessar o saber tido como legítimo naquele instante, Lobato teria bebido das fontes do positivismo comtiano, do darwinismo sociológico de Spencer e das teorias eugênicas. Seria esse o arsenal por trás da construção do Jeca Tatu (símbolo da critica ao atraso do homem do interior e, da qual, posteriormente, Lobato se desculparia) e da defesa apaixonada de um país com melhores condições sanitárias e mais próximo do mundo tido como civilizado e desenvolvido.

Complicado demais! Afinal, como discutir um autor que, ao mesmo tempo em que empreendia uma batalha incansável pela construção de uma Nação, criticava Anita Mafalti e os modernistas? Como trabalhar em sala de aula as ideias de um autor que, embora chamasse Nastácia de “negra beiçuda”, fazia dela o símbolo da sabedoria popular, mais eficaz do que a “cultura” empoeirada do Visconde de Sabugosa e do que a erudição de Dona Benta? Como lidar com um autor que, embora pioneiro na construção de uma literatura voltada às crianças na primeira metade do século XX, também escreveria O Presidente Negro, obra que, mesclando ideias etnocêntricas e de superioridade racial, revelaria um mundo fragmentado pela intolerância e pelo uso ideológico da Ciência em favor de ideais segregacionistas? Tenho certeza: tarefa das mais difíceis analisar cada uma das inúmeras camadas de um autor multifacetado que, apesar de ser o responsável pela formação de uma geração inteira de leitores (todos eles racistas e preconceituosos?), era capaz de demonstrar desgosto com a miscigenação que produzia, segundo sua opinião, um brasileiro tão ignorante, feio e indolente…

E por que não trabalhar Lobato nas séries finais do Ensino Fundamental e iniciais do Ensino Médio, quando os professores pudessem associar sua leitura com aulas sobre História, Ciência, Filosofia e Sociologia? Dessa forma, seria possível compreendê-lo tendo em vista o tempo e o espírito da época dos quais emergiram a fantasia maravilhosa e inovadora do Sítio do Pica-pau Amarelo. Seria interessante conhecer as obras originais e ousadas que anteciparam, em várias décadas, o que hoje chamamos de livros paradidáticos. Seria produtivo estudar os esforços de Lobato para a implantação de uma indústria editorial que fosse capaz de suprir a procura por livros com qualidade gráfica, sua luta pela nacionalização do petróleo (questão contemplada em O Poço do Visconde), sua prisão durante o Estado Novo por discordar das políticas de Getúlio Vargas e seu apoio a Luiz Carlos Prestes. Seria educativo entender o Brasil do início do século XX e a luta do autor por um Brasil onde as crianças soubessem matemática (A Aritmética de Emília), geografia (A Geografia de Dona Benta), ciências (Viagem ao Céu e História das Invenções), história (História do Mundo para Crianças), gramática (Emília no País da Gramática) e cultura brasileira (O Saci). Fazer isso, no entanto, seria complicado demais. Pensando bem, talvez ensinar Lobato com alunos de séries mais avançadas fosse até mais trabalhoso do que entregá-lo para crianças mais novas.

Muito, muito complicado… Em um tempo no qual o exercício da cidadania é confundido com a ação breve e policialesca de pequenos e tiranos “consumidores” munidos de smartphones, em um tempo no qual debate virou sinônimo de cliques nas redes sociais, em um tempo no qual livros são queimados e pessoas são assassinadas por manifestarem suas opiniões, é melhor ignorar ao invés de aprender para depois ensinar; é melhor excluir do que discutir a alteridade e a contextualização histórica de ideias. É melhor ficar no raso do que buscar profundidade. É mais cômodo chamar Lobato de racista e expurgá-lo das escolas do que compreendê-lo.

Complicado, complicado demais ensinar Lobato, mesmo ele sendo tão adequado para fins de educação étnico-racial. Afinal, que outro autor de literatura infanto-juvenil poderia oferecer tantas oportunidades para a discussão da sociedade brasileira, da ética na Ciência e do papel dos negros na nossa formação histórica durante as primeiras décadas do século passado?

Lobato é tão ricamente complexo e tão instigante que é mais fácil proibi-lo.

7 ideias sobre “Fora, Lobato!

  1. Para entender determinadas crenças e praticas sociais,que sao proprias de um determinado tempo historico social, é preciso acreditar na natureza historia e social do conhecimento, na influência do contexto social na construçao dessas crenças e praticas……o que e muito dificil, ja que a nossa educação nao valoriza essa questão…e sendo assim, fica mais facil proibir determinados livros onde aparecem esses conceitos e praticas…

  2. Adoro essas propostas paternalistas, e a adesão indecente de alguns professores também. Sem mencionar o fato de que o trecho foi tirado de um contexto, que, por sinal, foi completamente descartado. Isso me faz pensar em como a ignorância corrobora uma cultura de fragmentos: Ninguém precisa ler Descartes, apenas reproduzir “cogito ergo suum” (em latim mesmo, pra parecer mais erudito). Não nos esqueçamos que a mesma lebre já foi levantada acerca de Machado de Assis. É esse tipo de professor que corrobora com o fato do brasileiro ler 1,8 livros por ano e com o fato inegável, e assustador, de nossa educação ser uma das piores do mundo.

    • Ah, importante ver a entrevista da professora Marisa Lajolo sobre o tema. Melhor ouvir quem entende do assunto de verdade!!

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