O silêncio das Carolinas

Auguste Renoir

Eram Carolinas, mas diferentes, e não apenas porque uma fosse loira, fios dourados e rebeldes que tentavam escapar da amarra da fita rosa, e a outra morena, os cachos castanhos deslizando pela pala trabalhada do vestido; tampouco porque seis anos as separavam em idade, Maria Carolina se aproximando dos vinte anos, quase mulher madura, e Ana Carolina perto dos quatorze, o corpo revelando os seios e anunciando a curva dos quadris. Descobriram as diferenças por acaso, quando Ana Carolina passara a noite de Páscoa chorando no dormitório repleto de camas anônimas e vazias. Maria Carolina ouvira a solidão da colega, e também sozinha no Internato abandonado em razão do feriado, ela fizera companhia à menina mais nova.

Daquele momento em diante, passavam as tardes, livres das aulas e após as tarefas cumpridas, a comentar e investigar diferenças. Maria Carolina fantasiava ser a menina sua irmã, a irmã que não conhecera e de quem nada sabia. No seu colo, Ana Carolina fingia ter perto a mãe de quem fora afastada tão precocemente. Eram ambas Carolinas, embora uma tivesse azuis os olhos que a outra mergulhara no cobre, quase mel a tingir o pão de centeio recoberto de manteiga.

À escola interna, Ana Carolina viera de trem, as malas arrumadas pelas empregadas da fazenda, logo após o seu sexto aniversário. Aprenderia a ler e escrever, bordar, os nomes dos países e suas capitais, latim, e tudo o mais que as freiras achassem importante. No internato, Maria Carolina estava desde que chegara também aos seis, a viagem na carroça repleta de malas e mimos que os parentes de Sorocaba, no meio do caminho, haviam-na presenteado.

Com as regras da escola, Maria Carolina já estava acostumada e delas falava para Ana Carolina. Com a rotina das lições e com o cheiro das pretas vestes das Irmãs se habituara, e Ana Carolina também o faria. A tudo a gente se acostuma, Ana Carolina. E disso Maria Carolina duvidava, tanto quanto Ana Carolina, que a ouvia com atenção.

Eram ambas Carolinas, mas Ana Carolina passava o Natal com a família e Maria Carolina os Finados. Recebiam no Internato, as duas, visitas mensais de tios e de mais alguém da família, os encontros acompanhados do chá com bolachas que as freiras serviam na sala retirada da Ala Sul do convento.

Eram ambas Carolinas e não tinham amigas na escola, e sentiam saudades da casa onde haviam nascido, e dos brinquedos infantis, e do ninar das mães que jamais escutavam. A tudo poderiam se acostumar, diziam, menos ao silêncio. O que realmente machucava, explicava Maria Carolina, era o silêncio que atravessara o quarto quando a mãe a avisara da partida para o Internato, o silêncio que nada esclarecia e que a deixara imobilizada. O que fiz de errado, Ana Carolina?, lembrando apenas o rosto do pai a observá-la no quarto dos fundos, a tina repleta de água quente com que a ama a lavava. Do pai nada sabia, e nunca mais o vira desde que sorrira ao notá-lo, quieto, apoiado no umbral da porta, a admirar – também em silêncio – as linhas ainda juvenis do seu corpo branco a se deliciar com a espuma. Talvez não devesse ter sorrido ou talvez não pudesse imaginar que o nascimento de outra criança a afastasse mais ainda da mãe, com quem nunca conversava e de quem não lembrava a voz.

Maria Carolina soubera da nova criança pelo choro, pelo barulho das criadas e pelos gritos da mãe numa noite esquecida de janeiro; lembrava-se de ter se sentido feliz porque a criança seria como uma boneca, e se fosse menina seriam amigas, e se fosse menino ela teria finalmente alguém para protegê-la. Da nova criança sequer soubera o sexo, a mãe já providenciando a partida da filha mais velha para o interior e de lá para o Internato, e Maria Carolina sentia saudades do pequeno bebê cujo nome desconhecia e que, por não ver, imaginava morto. Não tenho sequer a alegria da saudade, dizia Ana Carolina, que não sabia de irmãos ou do pai. Prometiam-se, Ana Carolina e Maria Carolina: às nossas filhas, não daremos o silêncio.

Eram Carolinas, mas diferentes. O tio de Maria Carolina cobrava notas, o boletim perscrutado com detalhamento e atenção. O de Ana Carolina nada perguntava, indiferente aos trabalhos escolares e às provas realizadas. O de Maria Carolina trazia frutas e doces. O de Ana Carolina, fitas e lenços perfumados. Eram Carolinas, diferentes, mas sofriam com o silêncio, a mesma ausência de som que de tão presente se fazia corpóreo, e que ocupava o espaço a separar as cadeiras de veludo em que se sentavam e de onde observavam as mães ausentes.

Eram Carolinas, mas diferentes, e se descobriram mais iguais do que nunca quando avisadas da morte de Carolina Beatriz, a mãe. Descobriram-se iguais quando avistaram o mesmo caixão solene no centro da sala, as flores enjoativas no vaso de porcelana. A caminho da fazenda não perceberam a semelhança, porque apenas se imaginavam acompanhadas ao enterro da mãe, falecida de repente em razão da gripe. Teria dito a Madre, provavelmente, vá e acompanhe tua amiga, por que ela sofre e a dor precisa de arrimo e de um ombro onde possa descansar e chorar? Imaginavam isso uma da outra e só perceberam a crueldade do silêncio quando, à vista da cova aberta na terra, berraram mudas de dor. Ah, mamãe

Ficaram ambas na fazenda e não retornaram ao Internato. Casaram-se: Maria Carolina, com um primo distante; Ana Carolina, com o advogado que cuidava dos negócios da família. Tiveram filhas, todas Carolinas. Embora tivessem se prometido, jamais contaram às filhas sobre Carolina Beatriz. Incapazes de compreender a mãe, de recompor o bordado de suas próprias vidas, não lembravam nunca do passado. Bem que tentavam, mas não conseguiam. Às vezes, ao perceber que as Carolinas cresciam, pensavam na mãe, nas avós e bisavós e em todas as mulheres que, antes delas, haviam vivido no silêncio.

Para não falar sobre o silêncio, nele permaneceram.